ORAÇÃO

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Lucas 11.1

INTRODUÇÃO:
A oração é a disciplina espiritual mais conhecida, lida estudada e menos praticada.  Ninguém duvida ou questiona a sua importância, mas poucos os que conseguem enveredar-se pelos seus caminhos, neles permanecer e neles aprofundar-se. Justamente esses poucos que fazem isso são os que trazem Avivamento, transformam nações e mudam a história.
Onde está o problema?
O erro não está na falta de ensino. Centenas de livros são escritos todos os anos a respeito e estudos bíblicos aos borbotões se espalham pelas igrejas. As pessoas conhecem pelo menos ‘teoricamente’ o assunto.
O erro também não está na questão da “vontade”. Pensamos que todo crente sincero gostaria de ter uma vida de oração profunda e eficaz. Muitos expressam isso: algo que a maioria de nós realmente almeja, mas não consegue vivenciar.
Cremos que os nossos problemas são mais práticos que teóricos. São problemas relacionados ao tipo da nossa prática de oração. Ao empenho que fazemos para nos disciplinar, a nossa disposição de vencermos as barreiras internas e externas que nos impedem de orar.
 “ENSINA-NOS A ORAR”
Se os problemas estão localizados mais na prática (ou na falta dela), o que precisamos fazer em primeiro lugar é aprender orar.
O pedido dos discípulos em Lucas 11.1 foi “ensina-nos a orar”. Eles poderiam ter pedido tantas coisas ao Mestre como “ensina-nos a fazer milagres”, “a pregar”, etc. Mas pediram o que certamente é mais importante.
ATENÇÃO: o pedido foi ‘ensina-nos A ORAR e não ensina-nos COMO ORAR!
Quando Jesus ensinou a oração do “Pai nosso” aos seus discípulos, Ele não tinha a intenção de ensinar apenas um modelo de oração. Sua proposta foi uma postura em relação à oração: postura de comunhão (Pai), de dependência (o pão nosso dá-nos hoje), submissão (seja feita a tua vontade), etc.
Estes são os sentimentos que devem habitar o nosso coração quando oramos.
Hoje há muitos que advogam a tese que o nosso problema em relação a oração está mais no MODO que na PRÁTICA. Esses são os que ensinam “técnicas” de como podemos orar 30 minutos, 1, 2 ou mais horas, seguindo ‘receitas’ de orações programadas, bem ‘ordenadas’ com ‘boa aparência’.
Cremos que não precisamos aprender tanto “como orar”, porque, em última instância, os requisitos básicos para que nossas orações sejam ouvidas são a fé (Mc. 11.22-24) que deve brotar de um coração puro (Sl. 66.18) e que não se dá ao egoísmo e soberba (Tg. 4.3 e 6). Satisfeitas essas condições, desde a oração mais simples e pequena de uma criança assim como a oração “perfeita” de um inveterado praticante, serão respondidas.
O que precisamos fazer é orar. Começar a praticar a vida de oração.

PORQUE PRECISAMOS APRENDER A ORAR?
Basicamente por dois motivos:
I- Porque a oração é sinônimo de vida espiritual: Am.5.4
O crente que não ora, não tem comunicação com Deus, não est ligado à videira, não tem como retirar dela a “seiva” da vida. O crente que não ora, não tem o conhecimento e nem a vida de Deus.
João Wesley, citado por Steve Rarpper, chamou a oração de “o fôlego da vida espiritual” e “considerava a ausência da oração a causa mais comum da aridez espiritual”1.
Andrew Murray disse que “a oração é o pulmão da vida; através deste o médico pode dizer qual a condição do coração. O pecado da ausência de oração e prova para um cristão comum e mesmo para um ministro, de que a vida de Deus na alma está seriamente enferma e fraca” 2.
Todos os homens que foram usados por Deus, como Abraão, Moisés, Davi, Elias, Eliseu, Paulo, os “pais da Igreja”, os reformadores com Lutero, Wesley, Spurgeon, Moddy, Finney e tantos anônimos, tiveram uma vida espiritual cheia de graça e poder porque sabiam que o segredo para a vitória está na oração.
Sem oração não poderemos ser usados por Deus porque faltará a Sua presença, o seu mover, a Sua vida: Sem oração o nosso cristianismo será fraco e desnutrido, um tipo de ‘sub cristianismo’.

II- Porque a oração a garantia da operação espiritual:
João Wesley disse que “Deus nada faz senão em resposta a oração”.
Esta é uma lei espiritual. Aprouve a Deus agir na terra através da oração, da intercessão de seu povo. A sua palavra sempre é “pedi... buscai... batei...” (Mt. 7.7,8). Isso coloca sobre os nossos ombros a grande responsabilidade de movê-lo.
Watchman Nee disse que “não podemos pedir que Deus não faça aquilo que Ele não quer fazer, podemos, porém, restringi-lo de fazer o que Ele deveras quer fazer” 3.
O grande evangelista e avivalista norte—americano Finney disse: “temos que mover os homens com a verdade e Deus com a oração”.
Isso quer dizer que ‘a terra governa o céu’. As “chaves” do Reino foram colocadas em nossas mãos (Mt. 18.18). Se deixarmos de orar os problemas ficarão sem solução, Deus impedido de agir e as ‘pedras’ clamando.
O autor E.M. Bounds disse que “eras de glória milenar têm sido perdidas por uma igreja sem oração. A volta de nosso Senhor tem sido retardada indefinidamente por uma igreja sem oração. O inferno tem se alargado e traz repletos os seus medonhos abismos diante do trabalho morto de uma igreja sem oração” 4.
Que a nossa responsabilidade de proclamar com a nossa boca a vontade do Pai para que Ele a faça na terra nos curve sobre os joelhos e nos lance ao “recinto fechado”.

NOVOS CONCEITOS - NOVA PRÁTICA
Dissemos que nossos problemas com a oração são mais práticos que teóricos. Porém, devemos compreender que a nossa prática está intimamente ligada aos conceitos que temos da oração.
Os conceitos convencionais de oração, que a prendem aos limites do tipo, da forma, do tempo, são um grande empecilho pratica da oração, pois são bons para uns e ruins para outros, adaptáveis para uns e não para outros, dependendo da vida, da história e sobretudo, da personalidade das pessoas.
Exemplo: oração de joelhos; orações longas e demoradas; oração com os olhos fechados, etc.
A oração é algo que deve ser praticado na mais completa liberdade do Espirito, com prazer, e por isso, as pessoas podem aprender novos conceitos de oração (que fogem ao ‘tradicional’), mas que poderão levar a uma prática mais feliz.

I- A ORAÇÃO É UM ESTILO DE VIDA
A oração que ultrapassa os limites do quarto, do templo e penetra na vida!
Essa a oração que se aprende na ‘escola de oração do Senhor Jesus’. Sua própria vida era uma oração. Seus momentos com o Pai não se prendiam a um lugar (monte, praia, casas, templo, rua), nem a um horário (bem cedo, noite, de madrugada) e nem a fórmulas (orações pequenas e longas).
Quando a oração se torna o nosso estilo de vida, ligamos o nos os pensamentos ao Senhor, em comunhão com Ele, tantas vezes durante o dia, que Ele se torna companheiro, amigo, alguém com quem se dialoga constante e prazerosamente.
O imperativo de “orai sem cessar” (1 Tss. 5.17), lança-nos o desafio de implantar a oração na vida e fazer da vida uma oração.

II- ORAÇÃO É OUVIR
Esse conceito se choca diretamente com o que temos aprendido sobre oração. Estamos tão acostumados a falar, falar, derramar palavras sobre o Trono de Deus, que muitas vezes nossas orações se tornam verdadeiros monólogos.
É preciso entender a oração como diálogo. Isso implica em falar, mas também ouvir.
Falar demais pode nos levar ao erro das “vãs repetições” (Mt. 6.7). Devemos aprender o segredo da ‘oração presença’, da ‘oração postura’.  Quando se entra na presença de Deus em verdadeiro espírito de busca, mesmo que não saiam palavras de nossos lábios, já estamos em oração. Você pode chegar a presença do Senhor e dizer-lhe apenas: Senhor, estou aqui. A partir daí, pela fé, você pode ouvir o Seu Espírito ministrando, falando ao seu espírito.
Para executar essa oração de ‘ouvir’ é preciso, no entanto, calar tudo mais: emoções, sentimentos, é preciso descansar e esperar no Senhor (Sl.46.10; Sl.37.:7a).
Procure um lugar tranquilo, coloque-se na presença de Deus, reflita, medite em seu caráter, em seu amor e dialogue com Ele. Fale, mas acima de tudo, ouça.

III- ORAÇÃO É MUDAR
Cada momento de oração tem o poder de nos transformar. “Quanto mais nos aproximamos do pulsar do coração de Deus, tanto mais vemos nossas necessidades e tanto mais desejamos assemelharmo-nos a Cristo” 5.
A oração sensibiliza a nossa consciência e o nosso coração, que, confrontado com a glória de Deus, reconhece a necessidade de mudança.
Por isso, a oração é tarefa tantas vezes dura. Porque enquanto oramos, Deus está trabalhando em nós, em nosso caráter, e isso pode doer e incomodar.
Preciso deixar que o “divino oleiro” nos molde segundo a sua vontade e a oração e a avenida central que Deus usa para transformar-nos.

PRINCIPAIS BARREIRAS À PRÁTICA DA ORAÇÃO
Existem barreiras que se levantam para nos impedir de orar tanto no nível pessoal como coletivo.
I- A nível pessoal:
São os obstáculos, dificuldades a serem vencidas para a realização da vida devocional pessoalmente:
1.  A indisposição de ‘pagar o preço’
Há preço porque nessa hora tudo diz: Não! Tudo é contra.
E.M. Bounds disse que “Orar é um trabalho espiritual e a natureza humana não gosta de tão árduo trabalho espiritual. A natureza humana deseja velejar para os céus pelo impulso de uma brisa favorável, sobre um mar cheio e calmo. Orar é um trabalho humilhante. Humilha o intelecto e o orgulho, crucifica a vanglória assinala a nossa derrota espiritual e tudo isso e duro para a carne e o sangue. É mais fácil não orar do que suportar essas coisas” 6.
Em relação ao preço que deve ser pago pela vida de oração, analisa-se o texto de Mc. 14.32-41:
a) Preço físico: Marcos 14.38 e 40
-v. 38: Jesus lhes preveniu que “a carne é fraca”. Ela não irá contribuir com facilidade para aquele momento de oração.
-v.40: Dormiam pela segunda vez porque “seus olhos estavam pesados”. Se queremos ter vida de oração preparemo-nos para disciplinar o nosso corpo, a nossa carne e, na linguagem do apóstolo Paulo “esmurrar o próprio corpo”. Os joelhos vão doer, os olhos vão “pesar”, a mente vai cansar e o sono vai chegar. Mas é preciso orar!
b) Preço emocional/psicológico: Lucas 22.45
Os discípulos dormiam não só pelo cansaço físico, mas também dormiam “de tristeza”. A mente, a alma, as emoções dos discípulos não suportaram o peso e a força daquele momento difícil e decisivo do ministério e da vida do Senhor.
Orar mexe com a gente, nos põe em confronto conosco mesmos. Ficamos desnudos diante da glória do Senhor. Isso pode ferir e doer, no entanto, torna a oração a melhor das ‘terapias’.
c) Preço espiritual:
Este é o maior preço!
O momento era tremendamente importante para Jesus, sua obra e para toda a humanidade. A oração de Jesus pura batalha espiritual contras as trevas.
As “gotas de sangue” (Lc. 22.44) foi um preço espiritual. Nada ali, nem físico (pois não havia esforço para isso), nem emocional (pois ninguém sua sangue por sofrer crises), poderia tirar o sangue de Jesus senão forças espirituais, as mesmas que sangraram o Cordeiro no Calvário.
O preço espiritual é maior porque Satanás não ignora o poder que teremos se adquirimos esse “hábito divino”.
Andrew Murray afirmou “o filho de Deus pode conquistar tudo através da oração. Não é de se admirar que Satanás faça o impossível para arrebatar essa arma do crente ou impedir de usá-la”.
Samuel Chadwick disse: “A única preocupação do diabo manter os santos longe da oração. Ele nada teme dos estudos sem oração, do trabalho e da religiosidade sem oração. Ele ri da nossa labuta, zomba da nossa sabedoria, mas treme quando oramos” 7.
Que o Espírito do Senhor nos conceda força e disposição para vencermos esta batalha.
d) Os pensamentos inconstantes
Uma das maiores barreiras à prática da oração, reconhecida universalmente, são os pensamentos inconstantes. Amente que ‘vagueia’ não consegue se concentrar, se ater a oração. Foge para longe, totalmente adversa sua prática.
Como vencer este problema?
“Levando cativo todo pensamento a obediência de Cristo Jesus” (II Co. 10.5).
Através da:
1- Disciplina
2- Do treinamento da mente
A principal forma de treinar a mente orando a Palavra. Sugere-se que tome textos bíblicos como os Salmos 91, Salmos 23, Efésios 1 e os ore na primeira pessoa do singular - EU. Isso preenche a mente, verdadeira oração e pode gerar grandes bênçãos se apossarmo-nos das promessas da palavra.
A palavra cativa a alma ao mesmo tempo em que aquece o coração e traz novamente presença do Senhor aos pensamentos fugitivos.
Outra forma de se trabalhar com o problema dos pensamentos inconstantes é orar a respeito daquelas coisas ou assuntos, para os quais a mente se desviou e se fixou. Algumas vezes essas coisas são assuntos pe1a quais realmente se devem orar.

II- A NÍVEL COLETIVO, NO CORPO DE CRISTO
Em nível de nossas orações comunitárias, a principal barreira a falta de concordância que é igual a harmonia no Espírito Santo (Mt.18.19).
Concordar é mais que dizer “amém” para a oração do irmão. Dizer amém sem estar unido ao Corpo em profundo “vínculo de amor” (Cl. 3.14), vivenciando “uma só fé” (Ef. 4.1), “um mesmo pensar” (Fl. 2.5), não concordância, hipócrita.
Onde existe harmonia do Espírito Santo, ali está a benção do Senhor (Sl. 133.1 e 3b).

CONCLUSÃO
Oração é mais que buscar bênçãos do Deus. É encontrar-se com Deus em amor, com prazer. É a forma de termos um conhecimento pessoal e íntimo, de andar com Deus (Mq. 6.8). A oração acontece com “dois corações que se encontram”, o coração de Deus e o nosso.
Quando adentrarmos a vida de oração estaremos pisando em terra santa. Estaremos na presença do Deus vivo. A oração, e somente ela, nos arremessará à fronteira da vida espiritual.
Que oremos como Anselmo quando disse:
“quero buscar-te em meu anseio,
quero desejar-te na busca;
quero encontrar-te no amor
e amar-te no encontro”.


Pr. Elerson Wester Oliveira de Paula
Retiro Espiritual em 20-23/ 02/ 1993.
Fazenda Família Agrícola
Pirapanema, Muriaé/MG


NOTAS:
1 HARPPER, Steve. A vida devocional na tradição Metodista. Imprensa Metodista: São Paulo, 1992, p.27 e 24.
2 TIPPIT, Sunmy, O fator oração. JUERP, São Paulo, p.18.
3 NEE, Watchaman, O Ministério de Oração na Igreja. Ed. Vida: São Paulo, 1982, p.18.
4 BOUNDS, E. M. Poder através da oração. Ed. Vida: São Paulo, p.22.
5 FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina. Ed. Vida: São Paulo, 1990. p.47.
6 TIPPIT, Sarnmy. Coração Ardente. Juerp:1992, p.40.
7 Idem. P. 42.


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