Hernandes Dias Lopes, Rafael Eder e o que podemos aprender.

Roney Ricardo

Recentemente, um post no Facebook deu o que falar. O conhecido teólogo e pastor, Hernandes Dias Lopes, da Primeira Igreja Presbiteriana em Vitória, gravou um vídeo a pedido do Pastor Rafael Eder, da Assembleia de Deus Restauração de Vidas, em Cariacica. Pastor Hernandes gravou um vídeo convite (em suas próprias palavras - eu mesmo não cheguei a ver o vídeo) a pedido do Pastor Rafael. O fato é que são dois perfis totalmente distintos e o Pastor Hernandes acabou se retratando em sua página no Facebook, após analisar as pregações do Pastor Rafael e perceber que elas chocam com o que ele prega e escreve ao longo de mais de 30 anos de ministério. Embora não conheça o Pastor Hernandes pessoalmente, o tenho como a maior referência no que tange à pregação bíblica, no Brasil, atualmente, e tive a grata satisfação de ter um livro meu prefaciado por ele (detalhe: sou pentecostal a vida toda, e membro da Assembleia de Deus há 14 anos). 

Quanto ao Pastor Rafael Eder, o conheci pessoalmente e até já o recebi em minha casa, anos atrás, quando congregamos juntos na Assembleia de Deus do bairro Presidente Médice, em Cariacica. Mas, por mais estranheza que isso possa causar ao leitor ou leitora, esse texto não tem a finalidade de avaliar a atitude do Pastor Hernandes e muito menos emitir qualquer juízo sobre o ministério do Pastor Rafael Éder  (isso não significa dizer que eu não tenha uma opinião pessoal sobre o ocorrido, é claro). O que quero discutir aqui são os resultados de tal ocorrido e refletir sobre como podemos aprender com ele. Me preocuparam muito alguns fatos relacionados à isso e passo a discorrer abaixo, no desejo que sempre me move a escrever, gravar e ensinar: servir àqueles que acompanham meu ministério.
Peço, assim, que leia com bastante atenção:

1. Assembleianofobia. 

Perdoe-me por essa palavra estranha. Mas creio que você já entendeu seu sentido... Esse foi um ponto que achei extremamente preocupante. Soube de pessoas que se referiram à nós, assembleianos, como hereges ao comentarem o fato. E como sempre ocorre em situações como essas, a denominação é confundida com a pessoa que é acolhida por ela. Por mais que muitos irmãos presbiterianos vejam com suspeição o ministério do Pastor Rafael Éder, isso não é motivo para desacreditar a seriedade bíblica de nossa denominação. Somos uma igreja fundada sobre a convicção de que a Bíblia é a Palavra de Deus e é normativa para nós. Aliás, o Movimento Pentecostal, em suas origens, tem a Bíblia como padrão. Sua leitura das Escrituras é idêntica à das igrejas históricas em muitos aspectos. Aliás, em aspectos centrais da fé cristã histórica que, inclusive, nos aproximam. Há presbiterianos que se dirigem a nós de maneira sempre pejorativa, fazendo uma "caricatura" do pentecostal. Em geral, percebe-se claramente um total desconhecimento das doutrinas pentecostais e do que é de fato o Movimento Pentecostal. Há iniciativas na internet que demonstram total intolerância e desrespeito com cristãos sinceros, tementes a Deus, pelo fato de falarem em línguas e crerem na atualidade dos dons espirituais. Muitos deles saem do campo da discussão teológica sadia para ataques pessoais qualificando pentecostais com caracteres baixos, vis, depreciativos, humilhantes até. É curioso para mim, contudo, que milhões de pessoas no mundo tenham sido ganhas para Cristo através do Movimento Pentecostal... Diga-se de passagem que um dos maiores empreendimentos missionários na História do Cristianismo foi visto a partir de 1906. Há! E aquele velho argumento de que "as maiores heresias surgem de lá" é altamente questionável. Parte da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos acolheu o homossexualismo e nem por isso rotulamos o presbiterianismo como "herege". Não é preciso ser professor de História da Igreja para saber que as maiores heresias surgiram justamente de dentro da Igreja. Nesse sentido, o Movimento Pentecostal é vítima tanto quanto foram os primeiros cristãos.

2. Intolerância aos erros alheios.

É incrível como nós, cristãos, pregamos amor, amor, amor... mas quando é preciso manifestá-lo, simplesmente o ignoramos. Agimos com as pessoas com tanto rigor como se fôssemos perfeitos ou como se nunca tivéssemos, nós mesmos, sujeitos a cometer o mesmo erro que estamos criticando. Soube de pessoas que se referiram a atitude do Pastor Hernandes como um "erro juvenil", dentre outros comentários agressivos. Veja o post abaixo, por exemplo, que printei, onde a pessoa, além de uma generalização grosseira e clara demonstração de assembleianofobia, se mostra implacável com o Pastor Hernandes:
Meu Deus! É chocante ver comentários como esses numa plataforma, onde, majoritariamente, as pessoas são cristãs. É claro que o amor não pressupõe abonar erros e isso é ponto pacífico para a maioria de nós. Mas na medida em que nos colocamos (ou pelo tentamos) nos colocar no lugar das pessoas e nos esforçamos para ao menos avaliar o peso da responsabilidade que carregam, tornamo-nos mais empáticos e tolerantes. Jesus continua sendo misericordioso e diz que felizes são os misericordiosos! Precisamos lembrar que o mesmo Pedro que nega Jesus três vezes é convidado a ir ao encontro Dele, depois de ressuscitar. E o Marcos que fora rejeitado por ter voltado atrás, agora é "muito útil" (cf. Mc 16.7 e 2 Tm 4.11). Se constatamos um erro no comportamento alheio, nosso dever é não propalar, mas orar e procurar ajudar na medida do possível. Pensemos nisso!

3. Compartilhamento de coisas ruins.

Optei por publicar esse texto após constatar que o assunto já estava bem conhecido e havia de fato se tornado público. Mas o que se percebe claramente é que muitas pessoas (cristãs!) divulgam o assunto sem qualquer critério. Parece que está na nossa natureza compartilhar notícias ruins com grande afinco, o que não fazemos quando a notícia é boa (verdade seja dita). Olhei a situação por dois ângulos: um homem da envergadura do Pastor Hernandes preocupado com sua postura diante da Igreja brasileira, e do outro, o Pastor Rafael, cujas origens conheço em parte (e são ótimas!) que acaba ficando debaixo de uma chuva de pedradas, em função da repercussão do assunto. O que critico aqui não é o tanto o fato de denunciarmos aquilo que entendemos ser errado, mas sim o fato de termos prazer em difamar pessoas. Eu mesmo não aprecio o perfil da pregação do Pastor Rafael Éder, mas faço uma distinção muito clara entre seu ministério e a maneira como ele o conduz e sua pessoa. Sei que são duas instâncias entrelaçadas, mas com suas especificidades. Conversando com um amigo sobre o assunto, ouvi dele a seguinte expressão: "Roney, estou preocupado com o Pastor Rafael e orei por ele hoje". Isso é o que se espera de um cristão verdadeiro. Vi pessoas usarem o post do Pastor Hernandes com vistas a fundamentar sua própria atitude de crítica intolerante sob o manto de "defesa do evangelho". Mas é possível defender o evangelho sem atacar pessoas, sem ofendê-las, sem expô-las, sem humilhá-las de maneira pública. Se tal prática é defesa do evangelho, então eu nunca serei um apologeta. Diga-se de passagem que isso também não está no perfil do Pastor Hernandes, que ao longo dos anos vêm demonstrando claramente que seu ministério é o de anunciar a Cristo, somente. No próprio post fica evidente que ele não dirige nenhum ataque ao Pastor Rafael, apenas menciona a incongruência entre os dois ministérios. E era justo que ele fizesse isso, dado à posição em que está. Mas não houve qualquer sinal de que ele estivesse travando uma batalha de cunho pessoal. Muitos internautas, contudo...
Concluindo, convido o leitor ou leitora a que reflita nas palavras de Paulo em Colossenses 3.15-17: "Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos. Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações. Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai" (NVI).

Em Cristo,

Professor Roney Ricardo


Roney Ricardo serve a Deus e a Igreja como presbítero e professor de teologia. É casado com Dolarize Alves Vieira e pai de Ester Alves Cozzer. Membro da Assembleia de Deus Vida Abundante, igreja presidida pelo Paulo Cesar, em Cariacica, ES. Obteve sua primeira formação em teologia pela EETAD (Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus), vindo depois a graduar-se em Teologia. Psicanalista Clínico, Licenciado em Pedagogia e História, Psicopedagogo, pós-graduado em Metodologia do Ensino da História e Geografia, mestrando em Teologia pela FABAPAR (Faculdades Batista do Paraná) na linha de pesquisa "Leitura e Ensino da Bíblia", mestrando intra corpus em Teologia Histórica pelo CETAPES (Centro Teológico e Psicanalítico do Espírito Santo) e aluno no curso de extensão universitária "Iniciação Teológica" pela PUC/RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).
Rev. Welfany Nolasco Rodrigues

Pastor Metodista, professor e escritor. 45 anos. Casado com Ássima, pai de Heitor e Hadassa. Natural de Muriaé MG. Bacharel em Teologia pela UMESP.

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